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River Cross

River Cross

13
Nov18

PARADOXAL

Rui Cruz

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PARADOXAL



Era só à noite que aconteciam as desgraças alheias,
julgamos nós agora que nos deitamos mais cedo,
pensamos nós agora que não saímos do nosso confortável bem estar
sentimos nós agora porque o nosso corpo já não aguenta,
achamos nós agora, porque só sabemos das coisas pelo que lemos,
pois já não arriscamos por aquilo que nos presenteava com prazer e muita adrenalina, como correr na praia ao luar, dançar até de madrugada, beber até torvarmos a vista, abraçar quem queríamos e quando desejávamos, beijar na boca e roçar o corpo de quem nos atraía num canto escuro qualquer, nos extasiarmos com a luxuria, responder a quem nos desafiasse, com a nossa virilidade a dar nas vistas, com o ego inchado de ideias, a vaidade apodrecida pelos nossos vícios, e aquela longa e sedutora experiência adúltera, agora já nem sequer nos olhamos ao espelho, só para não nos tentarmos, pois estamos mais gordos e mais lentos, temos a pele menos esticada, e sentimos dores, muitas dores nas articulações, e aquele medo de que se nos pare o coração, um medo de tudo e ao mesmo tempo de nada, porque estamos muito mais confusos,
porque evitamos a todo o custo dizer que estamos mais velhos, mas estamos sim mais velhos, eis algumas das razões para todas as desgraças só acontecerem à noite e aos outros, mais só por ser aos outros do que por ser à noite, mas também porque a noite nos rejeitou, já não nos seduz,  virou-nos as costas, desencantou-nos, desterrou-nos para a solidão, encostou-nos à nossa insignificância, desfigurou-nos primeiro e nos aconselhou depois, "fiquem quietos", como se fossemos crianças que na realidade somos,  e nós não refilamos, aceitamos, pois a noite passou a ser soberana nas suas decisões, porque todas elas, incidem no nosso corpo, nas nossas visões, nas nossas inaptidões, nas nossas incapacidades para enfrentarmos mais tropelias ou arrelias, assim como hoje à noite, em que aqui estou a ter esta conversa em surdina para comigo mesmo,
sabendo e aceitando o facto de que para se existir, é necessário parar, e reconhecer um facto ainda mais premente, de que a vida nos obriga necessariamente a nos embrulharmos neste indesejável paradoxo como nos embrulhamos conformados todas as noites nos lençóis da cama mais cedo, apesar de ainda para os mais afoitos e mais rebelados, aos menos mansos ou os mais vivos, lhes aparecer pela frente, como se num ecrã de cinema, aquela imagem projetada pela mesma contradição, baseada na ideia de que fora sempre por dormirmos mais á noite, que chegámos a velhos, como se de uma fórmula física se tratasse, ahhhh como eu desejava que se trocassem de vez as noites pelos dias ou vice versa, assim já não estaria aqui a lamentar as horas perdidas a dormir, que devem ter sido muitas mais do que todas as noites perdidas, embora tenha conhecido quem as tivesse tentado recuperar em vida, mas que o resultado não agradou em nada, pois viveram metade dos anos da minha vida, será que eu trocaria os meus dias pelas noites que esses já defuntos aproveitaram? Duvido...mas raios me partam, como ainda custa saber que foi por não termos vivido as noites todas da nossa vida, o que nos proporcionou envelhecer, mas ao mesmo tempo, é também tão saboroso sonhar todas as noites, como acordar todos os dias a sorrir.

Abençoada esta idade na vida, com os sonos cumpridos e os dias seguintes ainda mais compridos.

rc

06
Set18

PALHAÇADA

Rui Cruz

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Temos um palhaço na alma,

uns mais profissionais,

outros mais amadores,

uns com muita graça

outros muito engraçados,

uns perdidos na própria desgraça,

alguns caídos na graça dos outros.

 

Mas em geral, somos todos uns palhaços,

não gostamos, mas andamos aos abraços,

não entendemos, mas dizemos que sim,

não queremos, mas temos o mesmo fim.

 

Rui Cruz

Aguarela*

 

 

 

 

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