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River Cross

River Cross

19
Jun18

"ODE A UM ROUXINOL"

Rui Cruz

John Keats  by William Hilton.jpg

 

John Keats, by William Hilton, after Joseph Severn (c. 1822) 


I

Meu peito dói; um sono insano sobre mim
        Pesa, como se eu me tivesse intoxicado
De ópio ou veneno que eu sorvesse até o fim,
        Há um só minuto, e após no Letes me abismado:
Não é porque eu aspire ao dom de tua sorte,
        É do excesso de ser que aspiro em tua paz –
              Quando, Dríade leve-alada em meio à flora,
                   Do harmonioso recorte
Das verdes árvores e sombras estivais,
              Lanças ao ar a tua dádiva sonora.

II

Ah! um gole de vinho refrescado longamente
         Na solidão do solo muito além do chão,
Sabendo a flor, a seiva verde e a relva quente,
         Dança e Provença e sol queimando na canção!
Ah! uma taça de luz do Sul, plena e solar,
         Da fonte de Hipocrene enrubescida e pura,
             Com bolhas de rubis à beira rebordada
                  Nos lábios a brilhar,
Para eu saciar a sede até chegar ao nada
         E contigo fugir para a floresta escura.

III

Fugir e dissolver-me, enfim, para esquecer
         O que das folhas não aprenderás jamais:
A febre, o desengano e a pena de viver
         Aqui, onde os mortais lamentam os mortais;
Onde o tremor move os cabelos já sem cor
          E o jovem pálido e espectral se vê finar,
             Onde pensar é já uma antevisão sombria
                  Da olhipesada dor,
Onde o Belo não pode erguer a luz do olhar
          E o Amor estremecer por ele mais que um dia.

IV

Adeus! Adeus! Eu sigo em breve a tua via,
          Não em carro de Baco e guarda de leopardos,
Antes, nas asas invisíveis da Poesia,
          Vencendo a hesitação da mente e os seus retardos;
Já estou contigo! suave é a noite linda,
          Logo a Rainha-Lua sobe ao trono e luz
             Com a legião de suas Fadas estelares,
                  Mas aqui não há luz,
Salvo a que o céu por entre as brisas brinda 
          Em meio à sombra verde e ao musgo dos lugares.


V

Não posso ver as flores a meus pés se abrindo,
          Nem o suave olor que desce das ramagens,
Mas no escuro odoroso eu sinto defluindo
          Cada aroma que incensa as árvores selvagens,
A impregnar a grama e o bosque verde-gaio,
          O alvo espinheiro e a madressilva dos pastores,
            Violetas a viver sua breve estação;
                   E a princesa de maio,
A rosa-almíscar orvalhada de licores
          Ao múrmuro zumbir das moscas do verão.

VI

Às escuras escuto; em mais de um dia adverso
         Me enamorei, de meio-amor, da Morte calma,
Pedi-lhe docemente em meditado verso
         Que dissolvesse no ar meu corpo e minha alma.
Agora, mais que nunca, é válido morrer,
         Cessar, à meia-noite, sem nenhum ruído,
            Enquanto exalas pelo ar tua alma plena
                   No êxtase do ser!
Teu som, enfim, se apagaria em meu ouvido
         Para o teu réquiem transmudado em relva amena. 

VII

Tu não nasceste para a morte, ave imortal!
          Não te pisaram pés de ávidas gerações;
A voz que ouço cantar neste momento é igual
          À que outrora encantou príncipes e aldeões:
Talvez a mesma voz com que foi consolado
          O coração de Rute, quando, em meio ao pranto,
             Ela colhia em terra alheia o alheio trigo;
                Quem sabe o mesmo canto
Que abriu janelas encantandas ao perigo
          Dos mares maus, em longes solos, desolado.

VIII

Desolado! a palavra soa como um dobre,
          Tangendo-me de ti de volta à solidão!
Adeus! A fantasia é véu que não encobre
          Tanto como se diz, duende da ilusão.
Adeus! Adeus! Teu salmo agora tristemente
          Vai-se perder no campo, e além, no rio silente,
             Nas faldas da montanha, até ser sepultado
               Sob o vale deserto:
Foi só uma visão ou um sonho acordado?
          A música se foi – durmo ou estou desperto? 


© National Portrait Gallery, London

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