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River Cross

River Cross

22
Jun18

ABDICAR

Rui Cruz

IMG_1892.jpg

 

Não é por ela não deixar, é por eu não desistir

não é por ela não gostar, é por eu insistir

não é por ela não saber, mas sim por eu sentir
não é por ela não querer, é por eu persistir.

 

Não é por ela apreciar, é por eu admirar

não é por ela pensar, é por eu adivinhar

não é por ela dormir, é por eu sonhar

não é por ela esconder, é por eu encontrar.

 

Nunca será por ela trair, mas sim por me atrair.

 

Não é por ela mentir, é por eu acreditar

não é  por ela falar, é por eu me calar depois

não é por ela não se calar, é por eu não ouvir

não é por ser ela, mas sim por não ser eu.

 

Nunca será só por ela, mas sempre pelos dois.

 

Rui Cruz

 

 

 

19
Jun18

"ODE A UM ROUXINOL"

Rui Cruz

John Keats  by William Hilton.jpg

 

John Keats, by William Hilton, after Joseph Severn (c. 1822) 


I

Meu peito dói; um sono insano sobre mim
        Pesa, como se eu me tivesse intoxicado
De ópio ou veneno que eu sorvesse até o fim,
        Há um só minuto, e após no Letes me abismado:
Não é porque eu aspire ao dom de tua sorte,
        É do excesso de ser que aspiro em tua paz –
              Quando, Dríade leve-alada em meio à flora,
                   Do harmonioso recorte
Das verdes árvores e sombras estivais,
              Lanças ao ar a tua dádiva sonora.

II

Ah! um gole de vinho refrescado longamente
         Na solidão do solo muito além do chão,
Sabendo a flor, a seiva verde e a relva quente,
         Dança e Provença e sol queimando na canção!
Ah! uma taça de luz do Sul, plena e solar,
         Da fonte de Hipocrene enrubescida e pura,
             Com bolhas de rubis à beira rebordada
                  Nos lábios a brilhar,
Para eu saciar a sede até chegar ao nada
         E contigo fugir para a floresta escura.

III

Fugir e dissolver-me, enfim, para esquecer
         O que das folhas não aprenderás jamais:
A febre, o desengano e a pena de viver
         Aqui, onde os mortais lamentam os mortais;
Onde o tremor move os cabelos já sem cor
          E o jovem pálido e espectral se vê finar,
             Onde pensar é já uma antevisão sombria
                  Da olhipesada dor,
Onde o Belo não pode erguer a luz do olhar
          E o Amor estremecer por ele mais que um dia.

IV

Adeus! Adeus! Eu sigo em breve a tua via,
          Não em carro de Baco e guarda de leopardos,
Antes, nas asas invisíveis da Poesia,
          Vencendo a hesitação da mente e os seus retardos;
Já estou contigo! suave é a noite linda,
          Logo a Rainha-Lua sobe ao trono e luz
             Com a legião de suas Fadas estelares,
                  Mas aqui não há luz,
Salvo a que o céu por entre as brisas brinda 
          Em meio à sombra verde e ao musgo dos lugares.


V

Não posso ver as flores a meus pés se abrindo,
          Nem o suave olor que desce das ramagens,
Mas no escuro odoroso eu sinto defluindo
          Cada aroma que incensa as árvores selvagens,
A impregnar a grama e o bosque verde-gaio,
          O alvo espinheiro e a madressilva dos pastores,
            Violetas a viver sua breve estação;
                   E a princesa de maio,
A rosa-almíscar orvalhada de licores
          Ao múrmuro zumbir das moscas do verão.

VI

Às escuras escuto; em mais de um dia adverso
         Me enamorei, de meio-amor, da Morte calma,
Pedi-lhe docemente em meditado verso
         Que dissolvesse no ar meu corpo e minha alma.
Agora, mais que nunca, é válido morrer,
         Cessar, à meia-noite, sem nenhum ruído,
            Enquanto exalas pelo ar tua alma plena
                   No êxtase do ser!
Teu som, enfim, se apagaria em meu ouvido
         Para o teu réquiem transmudado em relva amena. 

VII

Tu não nasceste para a morte, ave imortal!
          Não te pisaram pés de ávidas gerações;
A voz que ouço cantar neste momento é igual
          À que outrora encantou príncipes e aldeões:
Talvez a mesma voz com que foi consolado
          O coração de Rute, quando, em meio ao pranto,
             Ela colhia em terra alheia o alheio trigo;
                Quem sabe o mesmo canto
Que abriu janelas encantandas ao perigo
          Dos mares maus, em longes solos, desolado.

VIII

Desolado! a palavra soa como um dobre,
          Tangendo-me de ti de volta à solidão!
Adeus! A fantasia é véu que não encobre
          Tanto como se diz, duende da ilusão.
Adeus! Adeus! Teu salmo agora tristemente
          Vai-se perder no campo, e além, no rio silente,
             Nas faldas da montanha, até ser sepultado
               Sob o vale deserto:
Foi só uma visão ou um sonho acordado?
          A música se foi – durmo ou estou desperto? 


© National Portrait Gallery, London

19
Jun18

"Don't Stop the Dance"

Rui Cruz

 Quando a elegância reinava o Rock n' Roll.

"Described as one of most innovative and distinctive singers and lyricists to emerge in popular music" Ferry's sophisticated, elegant and glamorous on stage persona has won him fans around the world. His vocal genius is said to lie in his peerless ability to merge musical styles "from french chanson, through to classical crooner to hard edged rock."

17
Jun18

TEMPO

Rui Cruz

IMG_3184.JPG

 

Quando éramos mais novos queríamos ser mais velhos,
mas quando somos velhos gostaríamos de ser mais novos,
um paradoxo comum da vida, mas passível de ser alterado,

porque se nos apegarmos à realidade da História, envelhecemos,
se nos soltarmos da mesma e cuidarmos da nossa, rejuvenescemos.

 

Não existem almas novas ou velhas, existem sim almas vivas,
simplificando o desvendar deste segredo, pois esqueçamo-nos
de todos os marcos históricos comuns em que não participámos,
para nos concentramos só naqueles que individualmente vivemos.

Mesmo assim, estaremos sempre longe do dia, semana ou mês

em que nos ajustaremos ao TEMPO que está passando por nós.


Tanto pela insistência que as nossas exigências possam demandar,
como pela aceitação que as nossas submissões possam proporcionar,

ou pelas obrigações que a vida nos possa impor, por serem diferentes.


Logo,

o TEMPO nunca será igual para nenhum de nós, respeitemos O dos outros.

 

Rui Cruz

 

17
Jun18

A Espantosa Realidade das Cousas

Rui Cruz

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A espantosa realidade das cousas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais. Naturalmente.

Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
Nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.

Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer cousa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.

 

 

Fernando Pessoa (Alberto Caeiro), em "Poemas Inconjuntos"

 

15
Jun18

CÉREBRO

Rui Cruz

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quando o cérebro mente

o nosso coração sente,

quando o corpo ressente

estagnamos de repente,

 

paramos sentados no presente

 

quando fechamos os nossos olhos 

o mundo desaparece num instante,

quando o momento não acontece

a nossa vida para, a pele envelhece,

as rugas endurecem a nossa idade,

as lágrimas cristalizam a iris, e

o vazio toma posse do nosso tempo

 

quando tal acontece, morre a mocidade

 

mas quando o nosso coração não sente,

a mente cria fantasias com imaginação,

procura recursos para enganar o destino

para sustentar o nosso corpo em suspensão,

o sangue percorrer as nossas entranhas,

os glóbulos combaterem febres estranhas,

os poros expulsarem epidemias indesejadas

 

enquanto isso......

o espírito faz o diagnóstico, expurgando dúvidas

 

com a cabeça, o tronco e os membros unidos,

é quando estamos mais enfraquecidos, porque

é quando a vida mais nos explora e nos engana,

é quando a morte nos pode tirar as medidas todas,

é quando o futuro encurta, e o passado se alonga,

é quando procuramos coisas e evitamos pessoas,

é quando perdemos a conta dos anos em falta

 

morremos sem qualquer esperança de uma alta.

 

Rui Cruz

desenho de rui cruz

14
Jun18

"From The Beginning"

Rui Cruz

 From the beginning...we were meant to be here...old golden times. 

 

There might have been things I missed 
But don't be unkind 
It don't mean I'm blind 
Perhaps there's a thing or two 

I think of lying in bed 
I shouldn't have said 
But there it is 

You see it's all clear 
You were meant to be here 
From the beginning 

Maybe I might have changed 
And not been so cruel 
Not been such a fool 
Whatever was done is done 
I just can't recall 
It doesn't matter at all 

You see it's all clear 
You were meant to be here 
From the beginning

 

13
Jun18

DESENHAR

Rui Cruz

2018-06-13 15.40.22.jpg

Desenhar é como pensar, não se rasura nem se emenda, 

caso assim não fosse, seria arquitectar formas antes vistas,

seria copiar o que os nossos sentidos guardariam na memória,

ora isso, é o meio mais impessoal que um artista poderá utilizar,

desenhar é um desafio de momento, é instantâneo, é singular,

de outra forma, será agendar ideias alheias pré-concebidas,

será defraudar a integridade ou a genuidade da própria Arte,

ou o talento entra e sai como o ar que nós respiramos e inspiramos,

ou então será usurpar elementos da Natureza que não nos pertencem,

será plagiar sem se saber, assim como enganarmo-nos a nós próprios.

 

Rui Cruz

desenho de rui cruz ( sem apagar nem rasurar, automático )

 

 

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